Poucas discussões na área médica são tão relevantes quanto a relação dos médicos com a indústria farmacêutica. A mudança do paradigma na área médica surgida a partir da difusão da medicina baseada em evidência trouxe muitos benefícios para médicos e pacientes. No entanto, o crescimento exponencial do conhecimento, a excessiva carga de trabalho e a complexidade na interpretação dos resultados, tem dificultado o bom julgamento desta vasta literatura.
O crescimento da indústria de tecnologia em saúde e produção de medicamentos, hoje a terceira maior em lucratividade no planeta, gera uma aplicação de quantias gigantescas na propaganda de seus produtos. Mais de 11 bilhões de dólares anuais são investidos em marketing, um bilhão de reais no Brasil.
Sendo o objetivo primordial do médico trabalhar em benefício do paciente e o da indústria o de gerar lucros, como estão sendo abordados os potenciais conflitos de interesse desta relação? É correto que a indústria patrocine educação médica continuada?
Devemos estar atentos para os viéses e para as possibilidades de influência negativa na criação e na utilização do conhecimento. Como exemplo podem ser apontados estudos com resultados falsos; linhas de pesquisas desajustadas às necessidades da população; pesquisadores alinhados com produtos, estudantes e residentes que não questionam as novidades, além de usuários dependentes e fiéis e da mídia paga para garantir mercado.
A relação dos médicos com a propaganda de medicamentos inicia durante a faculdade mas é na residência médica que estes laços tendem a se estreitar. Embora tenha-se mostrado que os residentes são céticos em relação às reais intenções dos representantes da indústria, não temos observado muita preocupação com o oferecimento de presentes, materiais promocionais, refeições ou participação em atividades científicas financiadas. Estamos corretos?
Em paralelo a este assédio os residentes seguem enfrentando a dura realidade da falta de atenção aos mais variados aspectos de sua formação. Excesso de carga horária, remuneração inadequada da bolsa, preceptores pouco valorizados, utilização do residente apenas como mão de obra, atuação inadequada dos órgãos de fiscalização bem como a influência negativa das especializações sem regras de algumas sociedades. Não há oferecimento de programas de educação médica continuada de qualidade e sem conflitos de interesses.
Ao fomentar essa discussão esperamos que a grande beneficiária seja a sociedade pois poderá contar com um maior número de médicos adequadamente capacitados a enfrentar mais esse desafio da assistência à população, atuando sempre pelos princípios da ética pela busca da verdade.
Para tanto a comissão organizadora gostaria de convidar a todos para que integrem nosso maior fórum de discussão. Esperamos neste 40° Congresso poder dar continuidade ao sucesso dos congressos anteriores, que recolocaram a residência médica na pauta das principais discussões da área médica em nosso país.
- Diogo Leite Sampaio
Presidente Associação Nacional de Médicos Residentes - ANMR
Presidente do Congresso
Comissão Executiva
- Fernando Starosta de Waldemar
Coordenador
- Alexandre de Freitas Miranda
- André Kiyomitsu Zanuncio Sediyama
- André Wajner
- Cassiano Morais
- Daniel de Lima Silva Pereira
- Guilherme Brauner Barcellos
- Lidiana Mayer Knebel